Véspera
de haloween e a cidade se movimentava em lojas de doces, que sempre se
aproveitavam para aumentar os preços dos produtos. Afinal, ninguém queria
terminar a noite com uma árvore decorada de papel higiênico e ter que esperar a
próxima chuva pro presente derreter.
Lindsay seguia pelas ruas cheias da pequena cidade de Down Town, segurando sacolas preenchidas de quitutes. Era ruiva, tinha olhos negros como a noite e o rosto de formato fino e interessante, era bem atraente. Seu corpo era magro, tinha tudo no lugar e estava usando um vestido preto com botas da mesma cor.
A
moça entrou em uma loja de discos. A loja era pequena e vendia uma grande
quantidade de LP's. Havia pôsteres de bandas antigas nas paredes, como AC/DC e
Led Zeppelin. Um anjo particularmente chamativo naqueles pôsteres era o homem
ideal de Lindsay. Um anjo musculoso e com cabelos ao vento. Era pedir muito?
Talvez ela pudesse abrir mão das asas dele. Naquela cidade pequena seria
impossível encontrar um anjo daqueles.
Enfim,
debaixo da imagem angelical estava Celine. Não, não era Celine Dion. Era Celine
a vendedora de discos, amiga de infância de Lindsay. Possuía cabelos de todas
as cores possíveis e sempre estava mascando chicletes. Sua roupa era de couro,
o que era de se esperar de uma loja de discos de rock, reagge e outras coisas
do gênero. Mas não era um uniforme: Celine costumava se vestir assim mesmo.
Seus olhos negros pousaram em Lindsay.
- E
aí, comprou o bagulho? - perguntou. Para Celine, qualquer coisa era um
"bagulho".
-
Comprei - respondeu Lindsey, colocando uma sacola de quitutes sobre a bancada
de trabalho da amiga. - Ficou barato não, viu...
-
Que bagulho é esse!? - disse Celine indignada, vendo a nota fiscal. Pegou a
grana no bolso e entregou para a amiga.
-
Valeu.
-
Valeu. Eu não ia conseguir sair da loja hoje porque o babaca do John ficou
doente. Muito conveniente esse bagulho de ficar doente e deixar os outros
trabalhando sozinhos - reclamou Celine. - Então? O que é que pega?
-
Nada demais. Estou indo para um apartamento novo. Ele não tem nenhuma janela,
mas tem a sala mais ampla que já vi na minha vida, mas os quartos estão cheios
de bagulhos. Terei que limpar tudo
hoje à noite, a mudança chegou hoje de manhã, já montei a sala.
- Só
você mesma pra morar num apartamento sem janela - comentou Celine, dando a
volta para o outro lado da bancada e ajeitando uns DVD's numa prateleira.
-
Ele tinha janelas, mas elas foram preenchidas com tijolos para não ser
invadido. E também, é o que meu salário de merda pode pagar - respondeu Lindsay,
irritada. - Não sabia que agora vocês vendiam DVD's - disse, pegando um DVD da
trilha sonora de "A Rainha dos Condenados", um filme de vampiro. -
Trilha sonora precisa de DVD?
- O
filme vem dentro - respondeu a amiga. - Custa 5 dólares. Está em promoção. Toda
trilha sonora de filme está em promoção.
- Eu
vou levar...
-
Certo.
Após
a compra, beijou a amiga e saiu em direção ao seu apartamento. Já estava à
noitinha quando ela chegou no prédio novo onde morava e tinha muito o que fazer
naquela madrugada. Pelo menos era final de semana. Talvez no meio das coisas
que estavam no apartamento poderia ter algo útil. Foi quando ela viu um sujeito
alto com jaqueta preta e calças jeans
mexendo em um molho de chaves em frente à porta do apartamento de Lindsay. Ela
se aproximou e limpou a garganta, o que chamou a atenção do homem.
-
Com licença, mas esta é minha casa - disse, polidamente.
O homem virou a cabeça tão devagar que ela ficou com medo de ser algum assaltante e percebera que fizera uma burrice enorme.
-
Quem disse? - quando ele abriu a boca, o hálito de menta era perceptível de
longe e sua voz era ao mesmo tempo grossa e melodiosa.
Lindsay
se assustou com a palidez do rosto do homem. Parecia que sua pele macilenta ia
descolar de seu rosto a qualquer momento.
-
Minhas chaves dizem - disse, tentando sorrir, mas morrendo de medo, sacudindo
as chaves nas mãos. - Veja...
Ela se aproximou para abrir a porta vermelha mas o sujeito segurou seu braço. Sua pele era gélida como a noite, clara como o luar. Ela sentiu dor no aperto do braço enquanto ele pegou suas chaves e abriu a porta.
-
Minhas chaves dizem o contrário. Vá embora, para seu próprio bem.
Então ele acendeu as luzes do apartamento e ficou boquiaberto. Havia uma sala completamente montada no espaço que antes estava vazio. Enquanto isso, Lindsay pega o telefone e liga para o chaveiro.
-
Sim, preciso de troca imediata - ela falava ao telefone, quando ele pegou o
aparelho e apertou em suas mãos, o destruindo por completo.
-
Quem é você? - perguntou, e o medo mexeu até com os ossos de Lindsay.
- Eu
sou Lindsay. Aluguei o apartamento semana passada. Talvez você seja o morador
antigo que o senhorio mencionou... Sinto muito, Dylan, mas você sumiu por muito
tempo e...
De
repente ela estava contra a parede, o sujeito corpulento lhe segurando pelo
pescoço.
-
Como sabe meu nome? - disse, entre dentes.
-
O-o s-senhorio me contou! Pode me soltar por favor!?
- O
que mais você sabe sobre mim!? - quase rosnou.
-
N-nada! Só que você colocou tijolos nas janelas, só isso! Por favor, me solte,
eu sou inocente, você quer dinheiro? Eu não tenho dinheiro, por favor não me
mate, se quiser faça sexo esta noite comigo e depois vá embora, por favor...! -
disse, em desespero. Seus pés mal tocavam o chão.
Ele a largou, mas não fora por causa do que ela ofertara. Ele entrou no apartamento, andando como um animal arisco, os ombros arqueados, enquanto ela afagava o próprio pescoço. Ele dava passos largos e vagarosos, olhando a mobília na sala.
-
Pelo menos bom gosto você tem - ele disse, olhando os móveis, todos em tons de
creme.
-
E-eu vou ter mesmo que fazer sexo com você? - disse, logo se arrependendo da
proposta.
- Só
se você quiser. Que merda... - ele sai do apartamento e olha para a garota,
trêmula de medo, o saco de doces rasgado.
O cabelo negro dele estava arrepiado e agora que ela conseguira vê-lo melhor. Tinha uma boca de lábios finos e olheiras gigantescas debaixo das orbes verdes.
-
Escute, Srta. Lindsay, eu posso te dar dinheiro, posso te dar o que você
quiser, mas este apartamento é meu e desta forma permanecerá. Por favor, tire
suas coisas imediatamente.
-
Espera, já está noite, você acha que vou conseguir alguém pra fazer mudança e
eu não tenho outro lugar para ir! Eu tenho um contrato! Esse apartamento é meu!
- Eu
também tenho um contrato, mas de que valem os contratos se mesmo eu pagando
aluguel o senhorio aluga pra outra pessoa?
- Eu
não vou desistir da minha nova casa.
-
Mas ela nem tem janelas.
-
Fodam-se as janelas - ela abaixou-se e pegou alguns doces que tinham caído no
chão, bateu de ombros com Dylan e entrou no apartamento. A decoração era bem
retrô, a TV era uma das antigas, mas ainda suportava DVD e ela pretendia muito
bem escutar uma bela trilha sonora enquanto retirava as coisas velhas dos
quartos e separava o que lhe serviria ou não. - Tenho mais o que fazer.
Bateu
a porta na cara do sujeito, trancou-a. Foi até a cozinha e colocou os doces,
pensando no absurdo que era aquilo. Sempre tinha que acender uma lâmpada quando
entrava num cômodo: fosse dia, fosse noite. Quando girou para usar a pia, deu
de cara com Dylan, logo atrás dela. Como ele entrara ali tão rápido? Ele a
olhou e ela engoliu seco. Não sabia o que dizer, então falou a primeira coisa
que lhe veio à cabeça:
-
Aliás, você me deve um celular. Agora vai ficar aqui? Nem te conheço! - disse,
irritada.
-
Este é meu apartamento.
-
Não. Este é meu apartamento.
-
Então que seja, mas você me deve uma noite de sexo.
- O
quê?
- Eu
sou tão forte que poderia te cortar ao meio com apenas um golpe...
Ela foi dando passos para trás e passou perto de uma faca. Era a sua chance. Pegou a faca e esfaqueou o intruso tantas vezes que perdera a conta, enquanto ele continuava impassível à sua frente. O sangue lhe manchou a blusa branca que usava debaixo da jaqueta, mas ele continuava parado como se nada estivesse acontecendo.
-
Minha vez - ele disse, apático.
Com uma mão ele pegou Lindsay pelo vestido e a jogou de um lado para outro da cozinha, como se ela fosse uma pena. Suas costas bateram fortemente na torneira, quebrando-a e ela gritou de dor.
-
AHHHH! NÃO! POR FAVOR! - ela tentava se esconder, puxando os braços e as pernas
para perto de si, sem saber o que fazer, escondendo o rosto com as mãos.
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