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terça-feira, 12 de agosto de 2014

Terceira parte - O Apartamento - Combinados que não dão certo (por Priscilla Tôrres)



- O quê? Você vai apagar minha memória!? Não mesmo!
- Como assim?
- Não! Esse foi o melhor sexo que eu tive durante toda a minha vida!
- Se preferir eu posso apagar só algumas partes.
- Não é disso que estou falando - disse Lindsay, se aproximando devagar do vampiro. - Eu quero mais...
Instantaneamente ele a agarrou e estavam de volta no sofá. Desta vez a coisa foi mais intensa. Mordidas por todo o corpo de Lindsay, velocidade extrema nos movimentos de Dylan, os gemidos tornaram-se gritos e Madalena e, algumas vezes, Madelaine eram as únicas coisas que saíam da boca de Dylan, exceto, é claro, suas presas.
Completamente satisfeita, Lindsay se espalhou pelo colchão no chão da sala e sorriu descaradamente, acendendo outro cigarro.
- Isso não é de Deus!
- Sim, somos seres infernais.
- Não é disso que estou falando. Quer dizer, acho que já saí com todos os caras dessa cidade, ou pelo menos a maior parte que presta, ou que eu acho que presta, ou que achava que prestava, e nunca ninguém me completou como você, nunca me satisfiz desse jeito...
- Você fala igual Madalena.
- Ela estava certa. Aliás, eu acho que você poderia passar uns dias aqui até achar outro apartamento.
- Não mesmo.
- Porque não!? Você poderia dividir o aluguel comigo e parar de pagar quatrocentos mangos pro senhorio. Acho que nem vamos precisar de dois quartos se a coisa continuar assim...
- Pare com isso. Eu sou uma criatura imunda.
- Eu também. Afinal, o que é a humanidade senão um grupo de criaturas imundas?
Houve uma pausa longa enquanto Lindsay olhava para o teto cheio de teias de aranha e o silêncio foi angustiante. Então, o alarme de Lindsay tocou. Já era seis da manhã e ela precisava trabalhar.
Arrumou-se rapidamente tirando roupas da mala e, quando olhou para trás, o vampiro estava deitado com os braços cruzados e os pés juntos, como se estivesse em um maldito caixão.
- Dylan? - perguntou Lindsay, preocupada. Ele parecia morto e não respondeu. Estava completamente imóvel e ela não ousou cutucá-lo. Deixou um bilhete dizendo que ia trabalhar e saiu.
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- Hey, você! Que rosto é esse de quem fez um bagulho de sexo a madrugada inteira hein? - perguntou Celine, com tom de piada.
- Ah, mas foi excelente - disse Lindsay.
- Qual é o nome do bofe?
- Dylan.
- Dylan... Como Bob Dylan?
- Não, como um transa dealer.
- Você se prostituiu amiga? Esse era o último bagulho que eu esperava de você - Celine riu.
- Não. Negociei com ele, ele queria me matar e ofereci um estupro em troca.
- Amiga! Este homem é perigoso! - de repente a feliz Celine ficou com um rosto preocupadíssimo.
- Não se preocupe, viramos amigos e transamos a noite toda... Aliás estou cansada. Amei o DVD que comprei ontem, mas você sabe que eu sempre uso meu direito de troca depois de assistir, né?
- Porque ele queria te matar?
- Ele era o antigo dono do apartamento.
- Aluga outro canto. Vem morar comigo. Já disse que as meninas são um doce. Eu te cobro só cem mangos. Vamos lá, deixa esse malandro pra lá - disse Celine, pegando o formulário de troca de produto.
- Não. Estou muito bem por lá. Não se preocupe amiga, eu sei o que estou fazendo - disse Lindsay, escolhendo um DVD do Red Hot Chilli Peppers ao vivo para troca.
- Você que sabe... O convite está aberto. Prontinho, já fiz sua troca. Deixa eu só passar o código de barras aqui...
Celine foi fazendo os procedimentos enquanto analisou o pescoço da amiga.
- Vejo que já está preparada para mais tarde... - disse, e depois foi vendo que havia várias mordidas de vampiro no corpo da amiga.
- Estou experimentando a maquiagem que usarei hoje.
- Se eu não fosse ver filme com as meninas, eu ia para seu novo apartamento sem janelas. Red Hot, esse bagulho é muito bom. Aliás porque temos que trabalhar nesse bagulho de feriado?
- Pelo menos sairemos mais cedo do trabalho. Eu já saio mais cedo mesmo, porque trabalho só quatro horas.
- VOCÊ GANHA CEM MANGOS POR HORA NAQUELE ESCRITÓRIO!?
- Acredite, você não iria querer trabalhar no meu lugar. Estou morrendo de sono, vou para casa. Tchau, Line.
- O.K. Vai lá - disse a amiga, sorrindo. - Feliz dia das bruxas!
- Pra você também, Wicca! - Lindsay sorriu, sabendo o quanto significava aquela data para sua amiga Celine.
Chegando em casa...
Lindsay se assustou, pois nenhum fio de cabelo de Dylan estava fora do lugar. Ela começou a ficar desesperada. Ele estava frio como o gelo e, mesmo guarnecido de cobertas, ainda ficava gelado. Ela ficou ao lado dele, ajoelhada sobre o colchão no chão por várias horas e caiu no sono, até que o sol se pôs e ele abriu os olhos. Viu-a dormindo, vestida com uma roupa formal que lhe caía muito bem e disse:
- Lindsay...
- Oh, Dylan... - ela acordou e o abraçou, quase chorando. - Achei que você tinha morrido!
- Tecnicamente eu já estou morto - ele não retribuiu o abraço, ficou apenas com as mãos erguidas no ar, envolvendo-a. - Durante o dia eu entro em torpor, uma situação que nada no mundo pode me acordar. É quando um vampiro se encontra mais vulnerável. Enfim, agora que a satisfiz, posso ir embora. Farei com que você esqueça tudo o que aconteceu entre nós e...
- Eu não quero esquecer.
- Mas você precisa. Como acha que nós vampiros sobrevivemos até hoje?
- Vocês então se alimentam e fazem as vítimas se esquecerem de vocês? Simplesmente isso?
- Sim.
- Mas... Você poderia me poupar. Prometo que guardarei seu segredo.
- Um segredo guardado entre dois, já não é mais segredo - "proverbiou" o vampiro.
Um tufão de emoções girou por dentro de Lindsay. Ela estava apavorada. Não queria perder aquele homem que conhecia há praticamente 24 horas. Paixão é algo inexplicável e, quando misturado com sexo, simplesmente não existem palavras ou sequer pensamentos capazes de traduzir o que ela sentia.
- Não! Por favor!
- Eu não posso, senão serei punido, minha beldade...
Ele passou a mão gélida no rosto de sua "Madalena".
- Então, vamos fazer um acordo.
- Um acordo?
- Hoje é dia das bruxas.
- E daí? - disse ele, dando de ombros.
- Você pode sair comigo na rua pedindo doces, fantasiado de vampiro.
- Você está falando sério? Acho que está com febre.
Lindsay levantou irritada e foi até a cozinha. Algum tempo se passou, não se sabe ao certo se horas ou minutos, mas quando Dylan finalmente resolveu se levantar, ele foi até a cozinha e viu Lindsay chorando, cortando uma abóbora para fazer uma lanterna temática.
- Eu gosto de colocar uma dessas na porta - ela disse, chorando. - As crianças pegam as balas e eu não preciso olhar pra fuça delas...
- Você está muito irritada - ele observou.
Lindsay enfiou a faca por cima da abóbora, morta de raiva.
- Eu quero mais uma noite com você! Você é fascinante!
- Então podemos fazer um acordo...
- Tudo o que você sabe fazer são acordos?
- Na verdade... Sim. E foi um acordo que acabou lhe poupando sua vida.
- E acabou me fazendo um boneco de sangue. Você vem aqui e suga meu sangue transa comigo como ninguém e depois quer que eu simplesmente esqueça disso!? - disse, já em prantos. - Eu sou uma pessoa! Eu tenho sentimentos!! Eu nunca serei completa sem isso! Sem... Sem você!!!
- Mas vai precisar escutar meu acordo ou vai esquecer tudo agora neste instante e continuar cortando essa abóbora até o final da noite, colocará doces para as crianças e ficará sozinha vendo um DVD do Red Hot.
- O que seria mais quente que isso, sem você? - se referiu ao nome da banda. - Eu estou apaixonada!
- Não, não está.
- Quem é você pra dizer isso! - ela arrancou a faca da abóbora e enfiou bem no meio do peito dele.
- Na verdade você tem que me acertar no coração com uma estaca de madeira pra me matar.
Lindsay jogou a faca no chão, deu um grito de raiva e colocou as mãos nas orelhas, pensando que aquilo era um sonho e que logo acordaria.
- Eu aceito sair como uma fantasia de vampiro, desde que você aceite que eu apague sua memória. E se você não aceitar, apagarei sua memória agora mesmo. É uma regra que não posso quebrar. Nunca.
Lindsay ergueu o olhar para o vampiro e os olhos vermelhos de choro mostravam a tragédia que ela sentia. Parecia tudo uma encenação, porém os sentimentos eram verdadeiros. Estavam pulsando junto com o coração dela e nem que se fosse por uma noite de diversão onde todos podem se fantasiar do que quiserem e pregar peças uns nos outros, ela queria passar mais uma noite com Dylan.
- Certo... Eu aceito o acordo - disse, secando as lágrimas com as costas das mãos.
Dylan pegou a faca e assentou em frente à abóbora:
- Vamos consertar isso - e sorriu. As presas à mostra. Ele era simplesmente perfeito. Não era bonito, mas era mais ou menos como o anjo do pôster.
- Vamos...

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